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'A universidade brasileira precisa ser reinventada'

Professora e pesquisadora, Célia Linhares propõe a transgressão responsável aos continuísmos

Camila Tavares
14/04/2004

A reforma do ensino superior, idealizada pelo ministro Tarso Genro, impulsionou o debate sobre a qualidade da educação no Brasil. Professora da UFF e pesquisadora do CNPq, Célia Linhares trabalha com a idéia de que o ensino nas escolas pode ser mais participativo, dando ao aluno a chance de raciocinar e interagir. A autora de vários livros e artigos, como Formação de professores, uma crítica à razão e política hegemônicas (DP&A), Célia acredita que a escola se realiza quando propicia ao aluno um "saber com sabor". Em entrevista ao Traça, a professora fala de experiências positivas de ensino e comenta a proposta do MEC.

A reforma universitária, proposta pelo ministro Tarso Genro, vem causando discussões. A estatização de vagas ociosas das universidades é, na sua opinião, uma boa política?

Estou plenamente convencida de que a Universidade Brasileira urge por ser reinventada, tornando-se mais próxima dos problemas vitais que nos afligem para poder ajudar a sociedade brasileira a pensá-los, a problematizá-los e a contribuir para a formação de uma nacionalidade mais aprendente e atuante. Como vivemos um período marcado por grandes comoções, ameaçados por um terrorismo que não só se entranha no Estado, mas que se fazendo molecular, penetra em todos os intertícios da sociedade; há um descrédito pela palavra, uma banalização da política, enquanto a guerra com e sem fronteiras se alastra sem parar. O Brasil urge por boas universidades capazes de pensar e não somente reproduzir. Nossas universidades públicas precisam ser apoiadas nos seus trabalhos democráticos e seus docentes e discentes incentivados a cada vez mais transgredir responsavelmente os continuísmos.

A reforma apresentada pelo ministro, quando propõe uma ampliação da universidade, é digna de todo apoio. No entanto, o caminho indicado representa um extravio de um projeto que conjugue oportunidades qualificadas para todos com rupturas com as desigualdades educacionais de tão antigas raízes e acumulações entre nós. Por que “comprar” vagas nas universidades privadas, que têm se mostrado nacionalmente, com mais baixos índices de pesquisa, com contratos desrespeitosos para o corpo docente e de duvidosa aprendizagem para as minorias sociais? Para aumentar as assimetrias políticas, econômicas e sociais? Por que não investir decididamente nas universidades públicas?

A senhora acredita que os alunos de ensino Fundamental e Médio são bem preparados para entrar na faculdade?

A nossa meninada não está tendo uma escolarização que os ajude a distinguir, a pensar, a religar e a organizar-se na vida e organizar a vida democrática. Até diria que, para a grande maioria das crianças e adolescentes em idade escolar nesse Brasil continental, a experiência de freqüência à escola é vivida como uma ambivalência, pois, com todas suas negações, ela ainda representa um pertencimento, ainda que precário, transitório, artificial, a uma instituição, que por mais obsoleta e degradada ainda guarda um legado de esperança republicana.

Mesmo assim, atravessamos um período de grande fertilidade em experiências educacionais que vão se endereçando a uma outra cultura escolar e social. Nessas escolas os estudantes vêm pronunciando suas palavras, podendo perceber não só de onde falam, mas, sobretudo, como se vão produzindo territórios e fazendo sucumbir grupos e pessoas. Aprendem saberes com sabores de liberdade, feita com perspectivas para trás, para frente e para muitos lados.

Em seu livro Formação de professores, uma crítica à razão e política hegemônicas (DP&A), há a discussão de como razão e políticas hegemônicas influenciam a formação do professor. Que razão e políticas são essas?

A crítica que fazemos à razão e à política hegemônicas tem um endereço certo: um tipo de racionalidade, gestada por uma política que a marcou com a produção de conhecimentos desconectados da realidade. Entendemos como realidade uma construção permanente e, portanto, incapaz de ser isolada em episódios ditos empíricos factuais, sem interdependências históricas ou sem a colaboração de processos experimentados, memorizados, esquecidos e imaginados.

Este estilo de conhecer foi magnificado na modernidade e vem se infiltrando em nossa forma de pensar, reforçando um tipo de saber que se expressa em competências e domínio de poderes que tem produzido catástrofes ambientais e municiado guerras.

Nós, professores, não estamos imunes a essa forma de pensar e como todos os formadores de opinião e de pensamento se não nos apropriarmos de instrumentos de inclusão de outras lógicas e racionalidades, mais facilmente reproduzimos o que recebemos. Por isso mesmo, muitos pensadores vêm mostrando a urgência de pensarmos com e contra a racionalidade que nos foi legada.

A senhora fala que a escola deve propiciar ao aluno um "saber com sabor". De que maneira isso é possível?

Estamos na contramão de um saber padronizado, imposto a todos de forma massificada e tomado como um pacote que cada um recebe e usa para seus fins individualistas. Gosto muito de usar a expressão “saber com sabor”, porque penso que como educadores e professores precisamos habitar as palavras e deixar que elas nos habitem com atenção, com crítica, com poesia. Assim, por exemplo, quando atentamos para a palavra saber, vamos perceber o quanto ela tende, como se tivesse uma “vocação”, a entrelaçar-se com os sabores da vida. Estas marcas se inscrevem no próprio radical etimológico, no qual a palavra se apóia. Mais um passo e diremos que os saberes têm sabores, pois com eles testamos a vida, nos apropriamos dessas fagulhas do universo com que nos alimentamos, atendendo nossas curiosidades e interesses éticos, em meio às configurações sociais com que fazemos a história, mas também somos feitos por ela.

O modelo tradicional de ensino, com a hierarquização entre professor e aluno, estimula a formação de estudantes competitivos?

As relações entre professores e seus estudantes se organiza e flui com base na autoridade pedagógica que os primeiros mantém em relação aos segundos. Mas essa autoridade tem como suporte necessidades de saberes e compromissos com suas circulações e compartilhamento que irmana docentes e discentes. A hierarquia imposta é tão violenta quanto a ausência de autoridade, que precisa ser fortalecida, reconhecida e permanentemente organizada. As autoridades dos mestres dependem dessa busca de socialização de saberes que a vida vai provocando com a produção de necessidades, desejos, projetos e utopias. É, portanto, uma autoridade sempre porosa, compartilhada e aprendente.

Como transformar a escola em um ambiente mais inclusivo?

A escola, como uma instituição social, não pode fazer-se includente, plural, justa, igualitária se, na sociedade com a qual mantém vínculos de interdependências, prevalece a exploração, a violência, em todas suas variáveis que vão desde a manipulação – a mais sutil – até a excludência do trabalho, da moradia, do conhecimento, da palavra. Mas não podemos pensar e agir seqüencialmente, imaginando ser possível construir uma sociedade democrática, para então trabalhar eticamente na escola. A escola também ajuda a produzirmos uma sociedade em que seja possível exercer o convívio em que o respeito à diferença é uma ferramenta para resguardar e ampliar a igualdade, o compartilhamento da vida.

Durante sua pesquisa, a senhora estudou escolas que estimulam a cooperação entre os alunos. Como elas têm feito isso?

O processo de aprendizagem e ensino vai sendo organizado como uma experiência socializante. As curiosidades, uma vez expressas, alimentam e provocam outras curiosidades que, à medida que se complexificam, precisam de mais pensamento solidário, mais noções que se fundem muito além de esquema como “isto ou aquilo”, porque em várias situações é aquilo e isto também. A vida não é “achatada”, como os antigos pensaram que fosse o mundo. Há muitas dimensões, e aprender a reajuntá-las, distinguindo-as, enredando-as em escolhas que transitam entre singularidades e objetividades; essa é uma aprendizagem de cooperação de valor inestimável.


Entrevista
Reprodução

"Por que 'comprar' vagas nas universidades privadas que têm se mostrado com contratos desrespeitosos para o corpo docente e de duvidosa aprendizagem para as minorias sociais? Para aumentar as assimetrias políticas, econômicas e sociais?"