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Pelo Saara, a caminho de Agadir

José R. Linhares
Advogado, realmente viveu a experiência de viajar pelo deserto
20/04/2004

Perguntei a Hafife, - o amável beduíno que me acolhera naquela noite em sua tenda, em pleno Deserto do Saara, depois de ter deixado Quarzazate, no dia anterior - qual era a distância até Agadir. Sem hesitar, respondeu-me: três dias e duas noites, na costa de um camelo, com uma parada, para descanso e alimento dos animais, no Oásis de Bezerabah.

Fazer a travessia de um trecho do deserto, na costa de um camelo, era, talvez, uma das poucas aventuras que faltava à minha alma cigana. E era esta a grande oportunidade de fazê-la. Meus olhos brilharam de contentamento. Acertei, imediatamente, com Hafife, fazermos aquela viagem e, sem perda de tempo, já na madrugada seguinte, partimos...

À frente, em seus trajes típicos, Hafife comandava nossa pequena caravana, montado em seu camelo de estimação - o Poeira do Deserto. Ainda meio desajeitado em minha montaria, eu seguia o cortejo atrás do segundo camelo que transportava alimentos, água, remédios, roupas, equipamentos e mercadorias. Embora estivesse bem agasalhado, mesmo assim, eu sentia intenso frio, naquela madrugada no deserto.

Nas primeiras horas da manhã, quando o sol começava a banhar de luz e de calor aqueles imensos espaços, tive o primeiro susto, que seria superado por outro bem maior no dia seguinte. É que, sem nenhum motivo aparente, os camelos começaram a ficar impacientes, agitados; sacudiam suas imensas orelhas, levantavam suas cabeças, fungavam e ameaçavam retornar. Fiquei sobressaltado. Haffife, a esta altura, já de pé em sua montaria, de binóculo em punho, vasculhava o horizonte.

Para me tranqüilizar, fez um gesto com as duas mãos para que eu mantivesse a calma e disse-me, com voz pausada, no seu dialeto saara-hispânico: “los animales olfateam olores extraños, que puedem ser cualquier cosa”. Os camelos continuavam agitados; Hafife varria o horizonte com seu binóculo; eu me mantinha atento e o tempo se arrastava num ritmo de eternidade.

De repente, Hafife repousa seu binóculo debaixo do braço, volta-se para mim e grita a todo pulmão: “es una caravana que desponta na mirada... hay que saber que tipos son ellos”. A notícia não alterou meu estado de espírito; passei a repetir baixinho: “hay que saber que tipos son ellos”.

Na faixa do horizonte, uma imensa fila de camelos desponta, deslocando-se em nossa direção. Pude contá-los: cerca de vinte animais. Não havia como fugir. Pensei comigo mesmo: além da minha vida e da minha liberdade que eram dons inalienáveis, tudo mais que eu carregava era descartável, na hipótese de serem salteadores do deserto. A caravana se aproximava; no terceiro camelo já se podia ver uma tenda, ricamente, adornada.

Para minha surpresa, Hafife salta de sua montaria, retira sua boina de viagem e, em posição de respeito e reverência, curva-se para a caravana que começava a passar. Também eu, embora sem saber de que se tratava, mantive uma atitude respeitosa. Envoltos numa nuvem de poeira, passam por nós, vergando seus trajes típicos luxuosos, e, com uma leve curvatura de cabeça e um gesto discreto com a mão direita, nos saúdam.Os animais se confraternizam também com relinchos e sacudidelas de corpo.

Passam, finalmente, vão-se, perdem-se na distância e a paz e o silêncio voltam ao deserto. “É uma das odaliscas favoritas do harém do sultão Mohamed Hamadalí, chefe militar da região, a passeio pelo deserto, disse-me Hafife, com certa malícia”.

Refeito do susto e debaixo de um sol escaldante e de um calor quase intolerável, dormi como uma pedra o restante do dia, embalado pelas sacudidelas ritmadas do andar do meu camelo. Acordei nas primeiras horas da noite. Fazia muito frio. Abriguei-me e deixei minha vista se perder na vasta extensão das dunas, banhadas pela luz das estrelas.

Na solidão daqueles infinitos, me recolhi e “viajei” pelo mundo de minhas lembranças:. . . numa noite como esta, durante a Segunda Guerra Mundial, um piloto e escritor francês costumava voar, em missão de patrulhamento, sobre aquele imenso oceano de areia. Entre sonhos e miragens, conversava com as estrelas, suas amigas, ouvia o vento e se fez amigo de um imaginário principezinho, cujas conversas cheias de sabedoria e simplicidade, transformadas em livro, mais tarde, encantariam crianças e adultos pelo mundo afora.

Na verdade, o deserto exerce uma grande sedução na alma das pessoas. E, talvez, tenha sido por isso mesmo, que Antoine de Saint-Exupéry preferiu ficar por lá, para sempre, já que, para ele, “a beleza do deserto repousa na certeza de que em algum lugar há sempre um oásis”. No meio desses devaneios, relaxei; dormi de novo e sonhei que viajava numa pequena embarcação, num mar muito azul e muito profundo...

Na manhã seguinte, o céu amanhecera estranho, diferente do dia anterior, totalmente coberto por uma neblina seca. Ventava forte. Os animais também davam sinais de nervosismo. Hafife desce de sua montaria e me diz, com certa preocupação: “vamos procurar um lugar para nos abrigar, pois vem aí uma tempestade”. Experientes, os próprios camelos se encaminharam para uma vala profunda de uma duna e se deitaram.

Começamos, então, os preparativos para enfrentar aquele que era o maior flagelo do deserto: as tormentas. Cobrimos os camelos com uma lona fortemente grampeada ao solo. Fui orientado por Hafife a deitar-me embaixo da lona, do lado oposto às pernas do animal, amarrando-me ao selim. A sorte estava lançada.

Do meu esconderijo, não obstante o zumbido forte do vento que aumentava de intensidade a cada minuto, podia ouvir as preces de Hafife, no seu idioma berbere, àquele que era seu único e verdadeiro Deus: “Alá, Alá, Alá”!

Embora não fosse muçulmano, não tinha razões para duvidar da força da fé de Hafife, pois aprendera com o apóstolo São Paulo que “a fé remove montanhas”. Em poucos minutos, céus e terra viraram noite e um enorme pavio de areia, em aspirais, subia do chão para o infinito. A profecia do apocalipse me veio à mente. A terra parecia voltar ao caos. Hafife continuava invocando Alá e o Profeta Maomé. Lembrei-me de São Jorge - meu Santo Guerreiro e pedi a ele para que dominasse aquele “dragão” que me ameaçava. Somente no meio da tarde, o tempo começou a serenar. O deserto voltou à sua rotina e a nossa vida retomava seu curso normal.

Junto com a noite, chegamos ao Oásis de Bezerabah. Era um lugar lindo.Terras férteis, muita fartura de água e uma vegetação verde como a dos trópicos circundava um castelo medieval, onde residia o jovem Califa Bezerabah que nos recebeu com muita simpatia. Hospitaleiro, passamos a noite em torno de uma fogueira, comendo carne de carneiro assada na brasa e ouvindo as estórias fantásticas de seus antepassados que lutaram ao lado de Lawrence - “O Príncipe das Arábias” e de quem receberam aquelas terras. Os animais também foram bem cuidados e bem alimentados.

De alma nova e corpo renovado, partimos pela madrugada para a última etapa de nossa viagem. Logo após o por do sol, depois de mais um dia de intenso calor, Agadir, como uma mancha marcando os limites do deserto, surge iluminada à distancia, com seu casario de telhas vermelhas. Uma mesquita erguida nas bordas do deserto era aparada obrigatório para os fiéis devotos de Alá. Hafife apeou-se de seu animal; estendeu no chão seu tapete colorido e, voltando-se para Meca, curvou-se até encostar a testa no solo e durante cerca de quinze minutos orou de olhos fechados, agradecendo a Alá e ao bom Profeta Maomé o êxito daquela travessia, apesar dos rotineiros sobressaltos.

Ali, despedimo-nos. Um forte abraço selou uma amizade que apenas nascia, mas que já trazia os traços comuns dos andarilhos do deserto: a sedução pela aventura e a coragem de prosseguir na adversidade.

Novamente montado em seu camelo, Hafife agora se dirigia para um mercado berbere onde venderia suas mercadorias, para depois fazer o percurso de volta à sua tenda, no seu oásis, onde, com certeza, Hamaidah, sua companheira, com seu turbante colorido, o aguardava com uma boa sopa quente de carne de carneiro. Com um último aceno de mão, nos perdemos de vista.

Com a felicidade de quem carrega a realização de um velho sonho, dirigi-me para Agadir. Entrei na cidade. Mas tudo me parecia muito estranho. É que em apenas três dias, eu me acostumara ao deserto e esquecera a vida nas cidades. Só, então, entendi, perfeitamente, a razão porque aquele piloto francês decidira, em definitivo, “acampar” para sempre num oásis, tendo como teto o brilho das estrelas ou, (quem sabe?), já que voava tanto, virar, ele próprio, uma estrela cadente, flutuando sobre a imensa planura do deserto.


Outros Traços
Daniel Vargens

"Na solidão daqueles infinitos, me recolhi e “viajei” pelo mundo de minhas lembranças"