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Deus do Fogo

Victor Dorneles
11/04/2004

Cheguei à cozinha com o firme propósito de comer um misto-quente e acabar com a minha fome. Mas abri a geladeira, e o que tinha acabado era o queijo. Tentei acender o fogão, e tinha acabado o gás. De um suculento misto-quente, reduzi minha ambição a um pedaço de presunto morno, pois a geladeira não funcionava.

Já não lembro há quantos meses não pago as contas. Mas ainda está claro, posso enxergar alguma coisa dentro de casa.

Nos primeiros dias após cortarem a luz, era praticamente impossível achar algo. Levei horas para conseguir tomar um copo de água. Quando estava quase morrendo de sede, tateei algo parecido com uma torneira e girei com tanta força que saiu um jato estrondoso, respingando litros em mim e no chão.

Agora eu já me acostumei com o escuro. Até o prefiro. Digo mais: mesmo quando tiver dinheiro para pagar a conta de luz, não a pagarei! Pois dizer isso me dá uma certa dignidade. É como se eu pudesse (eu posso!) esnobar a rede elétrica e a minha falta de dinheiro por motivos meramente ideológicos. Estou fazendo a minha parte, lutando por um mundo menos poluído - e eu nem sei se luz elétrica polui... Provavelmente sim. Tudo polui.

Ou então, sou excêntrico. Tenho por hábito o escuro. Por isso menosprezo a conta de luz e não a pago. Eu apago! Posso fazer camisetas com o lema e ainda acabo lançando moda.

Céus!, como são ridículas as desculpas que encontramos para as nossas vergonhas. Ora, que se dane se não tenho dinheiro para pagar a conta de luz! Não tenho mesmo não! E daí? Todo mundo deve a todo mundo, os bancos devem milhões, o país deve bilhões. Grandes coisas! O que é minha dívida com a companhia de luz diante disso? A minha pequena dívida. A minha pequena dívida que não tenho dinheiro para pagar.

A minha dívida só me incomoda à noite, quando não enxergo nada. Quando eu não consigo enxergar mais nada, eu me lembro da minha dívida. Já nascemos devendo, todos nós. É aquela coisa de pecado original, já nascemos do pecado e essa coisa toda... Mas pecado é muito bom!

A história vai bem até Adão e Eva não pagarem o aluguel do Paraíso (o que foi considerado um pecado) e serem despejados. Aliás, o início dessa história é a luz, quando o Criador diz Fiat Lux. E Deus viu que a luz era boa. Então vieram os homens, também acharam a luz muito boa, industrializaram-na e resolveram cobrar por ela. E eu resolvi não aceitar a conta.

E aqui estou eu, muitas mil eras após o Fiat Lux, sem luz.

Há mais ou menos um mês tive a brilhante idéia de fazer uma fogueirinha na sala. Queimei uns tapetes com querosene, mas os vizinhos não gostaram. Interfonaram, implorando que eu não causasse um incêndio no prédio, dizendo que minha fogueirinha - a minha singela fogueirinha - poderia matar muitos velhinhos queimados ou intoxicados.

O cheiro nauseante do querosene havia me deixado tonto, em estado alterado, como se eu estivesse bêbado. Respondi que não podia apagar minha fogueirinha porque senão meu orixá me puniria. Expliquei que pertencia a uma seita satânica e aquele era o dia de adorar o deus do fogo, a culpa não era minha! Ou eu botava as salamandras para arder ou seria punido, aliás, seríamos todos punidos.

Não tenho nem nunca tive religião e não acredito nem em remédio para dor de cabeça, mas falava com tanta convicção que pensaram que eu estava possuído, e agora, vendo com distanciamento, acho que eu estava realmente possuído.

Mas o deus do fogo e o síndico (deus do prédio), fiquei sabendo naquele dia, são divindades rivais. Não baixam no mesmo terreiro.

Chamaram a polícia.

Ao que me consta, tocaram a campainha e acharam que eu a ouvia. Mas a luz foi cortada, e a campainha não funcionava. Devem ter socado a porta, mas foi impossível perceber. Eu tinha começado a levar a sério a minha nova religião e resolvera bater tambor. Arrombaram a porta, e fui surpreendido de cueca, no meio do meu ritual satânico-piromaníaco-musical, suando e batendo tambor em frente às chamas para louvar o deus do fogo.

Fui levado para a delegacia com tambor e tudo. Perguntaram se eu estava drogado e eu clamei pela minha liberdade religiosa. Sim, eu conheço os meus direitos! Drogado, doutor, só se for de querosene. É crime?

Fui liberado mediante a promessa de não causar mais transtornos. Outra dessas e era bem capaz de eu levar uma surra no xadrez para aprender a não incomodar as velhinhas católicas do meu prédio.

Passei muito mal com o cheiro insuportável do querosene queimado e vomitei algumas vezes. Não apenas eu, mas também outros moradores, fiquei sabendo depois. Nas semanas seguintes, recebi ameaças pelos corredores. Uma gorducha do quinto andar se vangloriou de um tio juiz, e avisou que já estava mexendo os pauzinhos para me processar. Uma mulher com uma criança teve medo de subir comigo no elevador. Ficou esperando no térreo o elevador voltar, para poder subir em segurança, sem um maníaco ao lado. Resolvi descer pelo mesmo elevador para dar de cara com a minha vizinha. Quando ela abriu a porta, tirei o isqueiro do bolso e acendi. Hahaha! Vi pavor nos seus olhos. Bateu a porta e saiu correndo, gritando pelo porteiro.

Acho que foi o deus do fogo que encarnou em mim. Ou então, comecei a experimentar a loucura.

Mas se ele chegou realmente a encarnar, com certeza já foi embora, pois nem o fogão acende mais.

E se eu acendesse velas em lugar de querosene, talvez os vizinhos não reclamassem, mas com certeza teria sido bem menos divertido.

Volta, Deus do Fogo! Volta e traz luz à minha vida!! Enche esta casa com a luz do Teu Espírito, que nenhum gerador pode conter, nenhuma represa pode barrar e nenhuma hidrelétrica pode produzir! Sim, Tua Luz, à Qual nenhuma lâmpada queimada pode resistir e que nem mesmo o implacável técnico da CERJ pode cortar!

- Vinde a mim os raios da Tua Luz, pois nela me queimarei com se ardesse no Inferno, mas a Tua Luz é o Céu! Princípio do Prazer, tocha formidável sobre a treva do nosso deslumbramento.

E ao dizê-lo, toda a eletricidade do apartamento voltou: as luzes se acenderam, o ventilador tornou a ventar e o prato da vitrola girou novamente, trazendo o velho vinil arranhado à vida, e ouviu-se a voz de Maria Bethânia. E o que ela cantava com toda a força de seus pulmões era a palavra: luz!!

E da orquestra, ao fundo, vinha um sol maior...

Aurora!!!


Nossos Traços
Daniel Vargens

"E aqui estou eu, muitas mil eras após o Fiat Lux, sem luz"