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Degustação poética

Pequenos livros trazem desde os clássicos sonetos aos autores mais contemporâneos na coleção 5 poetas

Alessandra Cruz
15/04/2004

Um universo de estilos, formas e inspirações, extraído do trabalho de diferentes autores em uma pequena caixa de papelão. Com 5 poetas, a Travessa dos Editores proporciona aos amantes do gênero uma espécie de degustação poética. Aqui se prova de tudo, desde os clássicos sonetos aos poemas sem rima, passando por outros que fazem da forma seu breve conteúdo. Do veterano e premiado Salvador Espriu (1913-1984), várias vezes indicado ao Nobel, o livro Quatorze traz uma seleção de poesias traduzidas por Ronald Polito. Nesses poemas estão marcadas duas faces da obra de Espriu, a oposição à ditadura de Franco, na Espanha, e a temática da morte. O poeta catalão encanta com sua nostagia e lirismo, salpicando aqui e ali uma certa dose de desabafo.

Já o trabalho de José Kazer, em Madame Chu & outros poemas, passa pela busca da origem e retrata o cotidiano. O tom do poeta cubano traz uma atmosfera de sonho. Kazer escreve poesias fortemente visuais, causando a sensação de videoclipe. Outros três livros apresentam amostras da obra de poetas brasileiros, como o psicanalista MD Magno, que em S'Obras brinca com as palavras, na forma e no sentido. O poeta varia no estilo e na métrica, mas não perde o tom de sarcasmo e deboche sempre bem dosados. No contraponto, Folhagens de Deborah Brennand, revela uma poesia intimista, sensorial, que experimenta as texturas e cores da natureza para falar de temas como o amor e a solidão.

Por fim, a Poesia Mínima que intitula o livro de Carlos Luz, demonstra a maleabilidade desse estilo. Com versos que se aproximam das quadrinhas populares. Aqui a métrica se faz nas letras e não nas sílabas poéticas. Sempre o mesmo número de letras para cada verso em rimas inusitadas.

Canção da Passagem da Tarde

Penetra a tarde tranqüila
no escuro percurso da vista.

Além do mar que bem cultivam
os bois do sol, dentro do trigo,
quando perfeita morre a flor
no ar leve, pela grande dor
deste itinerário da vista,
se vai a tarde tranqüila.
(Salvador Spriu)


REMORDENDO A RARA ESCUTA/
DO ANEL QUE A TRAZ QUANDO PISCA/
FAZ-SE A FACE E A FACE AFAZ-SE/
À QUE ACOSSA AO GOZO E AO ASCO/
OLHANDO A FRUTA QUE A FITA/
COM A BOCA VORAZ E POUCA/
(MD Magno)

A visita

Longos e longos anos esperei uma visita,
mas só os ramos agitaram a ventania.
Disseram-me - o longe é sem fim.
Todavia, voltei àquele bosque
e lá só estava uma lua de cinzas.

Redisse então tudo o que foi dito:
o nome de flores clandestinas
À mais funda das raízes eu disse
- ermos são de almas vivas
e toda volta é um descaminho.

Felizmente, só estava no bosque uma lua de cinzas.
(Deborah Brennand)


M í n i m a B o ê m i a

a n t e s t a r d e d o q u e c e d o
e d e p r o s a u m o u t r o d e d o
(Carlos Luz)


Traça Colaboradora

Delírios de um velho escritor

Acho que não sei mais escrever.
Deus o sabe. As canetas, também.
Damião, mosquitinho antigo
que me perturba na orelha direita
Também o sabe. Me acompanha há anos.
Meu amigão.
Não escrevo muito,
nem sei mais como escrevo
Gosto do que escrevo,
mas não gosto de como escrevo

Mas como não gostar
de como escrevo se
ainda agora disse
“nem sei mais como escrevo”?

Vai entender esse povo que escreve!
(Ana Paula Marinho)


Poesia
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"Aqui se prova de tudo, desde os clássicos sonetos aos poemas sem rima"