O jornalista Leandro Boavista Fortes, 37 anos, viveu histórias que dariam livros. Foi cadete da Força Aérea, mas descobriu que morre de medo de altura e odeia guerra. Mesmo assim, fez a cobertura de uma, na Angola, em 1995. Mais jovem, participou da refilmagem de O pagador de promessas como figurante, mas logo abandonou a carreira de ator. Nascido no Rio de Janeiro, Fortes se mudou ainda criança para a Bahia, onde se formou em jornalismo e começou sua carreira. Ao todo, já passou por nove redações de jornal no país. Trabalhou na Tribuna da Bahia, no Jornal da Bahia e na TV Itapoan. Em 1990, foi para Brasília trabalhar no Correio Braziliense. Ainda na capital federal, onde reside até hoje, Fortes passou pelas sucursais de Estado de S. Paulo, Zero Hora, Época, O Globo e Jornal do Brasil, onde trabalha atualmente como coordenador de política da sucursal brasiliense. Desta rica experiência, surgiu a semente do primeiro livro: Cayman: o dossiê do medo (Editora Record, 252 páginas, R$ 32). Na definição do próprio autor: "Um golpe entre malandros transformado em escândalo público de bastidores inacreditáveis". As idéias não param. Agora o jornalista está acabando de escrever um romance que se passa no período da Guerra do Paraguai e será lançado em julho. Malabarista das palavras, este carioca com acarajé no sangue compartilha com o Traça um pouco de suas aventuras e de seus devaneios literários.
Quais são as principais etapas de uma investigação jornalística?
A investigação jornalística se assemelha muito à policial, embora seja feita por outros parâmetros. Sem distintivos, armas ou respaldo do aparelho judiciário, o jornalista tem que se calcar em boas fontes e documentos confiáveis. É preciso ter alguma coragem para se meter em confusões e uma dose de irresponsabilidade para se apegar a elas. Do caos que se instala numa apuração que envolve investigação contínua e sistemática é que se tira o ouro da informação. A experiência é alma do negócio, na maioria dos casos, mas talento, ousadia e, principalmente, desconfiança sobre tudo que lhe cai nas mãos, garantem uma montagem relativamente tranqüila do quebra-cabeça.
Durante a investigação para Cayman: o dossiê do medo, você reuniu uma grande quantidade de informações. Como foi o processo de estruturação do livro?
A investigação da qual resultou o livro começou quando eu era subeditor da revista Época em Brasília. Fui mandado a Miami, primeiramente, para fazer uma reportagem sobre lavagem de dinheiro da bandidagem brasileira na Flórida. Resultou numa matéria pífia, mas graças a ela acabei fazendo contato com gente do FBI e da comunidade diplomática brasileira nos Estados Unidos. Menos de um ano depois, uma fonte do Ministério da Justiça me apresentou um documento sigiloso com nomes de brasileiros residentes em Miami que seriam investigados pela Polícia Federal no caso do Dossiê Cayman, uma papelada entre falsa e verdadeira que insinuava a participação do então presidente Fernando Henrique Cardoso e outros políticos do PSDB em uma conta secreta, nas Ilhas Cayman, onde supostamente se havia depositado mais de US$ 300 milhões de dinheiro desviado do processo de privatização do Sistema Telebrás. Com esse documento nas mãos, fui a Miami e procurei, um por um, antes da polícia chegar, as pessoas que seriam investigadas. Três deles tinham ligação direta com os papéis. A partir daí, colhi depoimentos e busquei informações no FBI. Voltei para o Brasil e decidi escrever o livro. Faltava, no entanto, saber os detalhes de toda a operação. Os envolvidos no caso iriam me ajudar tempos depois. Em setembro, os três foram para a Jamaica e de lá me ligaram. Queriam contar tudo. Pedi uma licença não-remunerada da Época, consegui um financiamento de uma editora, e parti para a terra de Bob Marley. Fiquei por lá 20 dias. Na volta, passei por Miami, recolhi novos dados no FBI, e retornei ao Brasil. Em Brasília, tive acesso a detalhes da investigação. No fim das contas, tinha mais de mil páginas de documentos nas mãos e mais de 10 horas e gravações com depoimentos de Honor Rodrigues da Silva, João Barusco e Ney Santos - a "turminha e Miami" - que montara o dossiê para dar um golpe local e que, sem saber, se metera num escândalo internacional. Passei três meses em casa, lendo e escrevendo, das 8 da manhã às 8 da noite.
Em algum momento durante a investigação, você sentiu medo de sofrer represália?
Os únicos constrangimentos realmente temerários a que fui submetido foram se avolumando um pouco antes do lançamento do livro. Os policiais federais envolvidos na investigação estavam a serviço do Palácio do Planalto e, portanto, fizeram de tudo para responsabilizar uns gatos pingados e encerrar o assunto sem ir no ponto central do caso: a reação aturdida e amedrontada do governo do PSDB aos papéis do dossiê. Ficou claro que aquela conta era falsa, mas que certamente alguma coisa semelhante existia no Caribe. Pelo que me foi contado na Jamaica, a verdadeira conta está em Luxemburgo. Pois bem, com base nas matérias que publiquei na Época, os policiais me processaram por calúnia e difamação. O mesmo foi feito pelos informantes que eles mantinham em Miami, uma turma barra pesada que mexia com fraude e contrabando na Flórida. Quando o livro saiu, eu já tinha 11 processos judiciais contra mim e contra a revista. Todos ainda tramitam.
Como deve ser a relação entre jornalista e fonte?
Só pode existir um tipo de relação entre essas partes: a profissional. Relacionamentos incestuosos entre jornalistas e fontes resultam, impreterivelmente, na perda de credibilidade, por conseguinte, em mau jornalismo.
De acordo com sua experiência na cobertura do conflito de Angola em 1995, qual é a postura do jornalista em uma guerra? Como coletar informações, melhores fontes? E o medo, é mais aguçado quando se está no front ou quando se investiga a corrupção dos políticos brasileiros?
Na guerra, os sentimentos que movem uma cobertura são outros. Há o conflito, em si, mas há, sobretudo, as questões humanitárias que se fazem urgentes a todo tempo. O risco de se receber uma balaço na testa é um fato, sobretudo quando se está em meio a uma guerra civil, onde os fronts são dispersos e clandestinos. Há a fome dos civis e a fúria dos militares. Em Angola, como em todas as guerras, as informações oficiais são sempre as mais desprezíveis. A verdade do conflito está nas ruas, nos vilarejos, nos hospitais de campanha, nos asilos de mutilados e nas trincheiras dos soldados. A partir dessas fontes é possível escrever os horrores e as razões de um conflito. Fora disso, corre-se o risco de se repassar somente a ficção oficial. Ainda assim, prefiro mil vezes voltar às estradas minadas de Calamboloca e Anduro do que passar as tardes ouvindo papo furado nos corredores refrigerados do Congresso Nacional.
Você está escrevendo um livro de ficção que se passa durante a Guerra do Paraguai. Como se desenrola a história?
É um romance que trata das circunstâncias da sociedade brasileira durante a Guerra do Paraguai. Não é, portanto, um livro sobre a guerra em si. Fiz uma longa pesquisa sobre o assunto nos últimos três anos. Pretendia escrevê-lo em 2000, mas tive que colocar o projeto de lado por causa da história do Dossiê Cayman. Desde o ano passado, no entanto, voltei a batucar no teclado esse romance que não me sai da cabeça. O fio condutor é o discurso de um general desonrado e assassino que é mandado de volta ao Brasil depois de matar um soldado a pranchadas. A partir da fala dele, em uma sessão do Senado Imperial, em 1868, vou apresentando personagens envolvidos no conflito, sejam como soldados, sejam como cidadãos brasileiros. Minha pesquisa incluiu muito sobre a tática militar usada no conflito e as questões políticas da guerra. Mas, sobretudo, me ative ao cotidiano das tropas, aos medos e às angústias dos combatentes, aos expedientes dos médicos e dos capelães, seus conflitos pessoais em meio à mortandade das batalhas e das epidemias de cólera, tifo e febre amarela. É uma história sobre um período fundamental da formação social e política brasileira, mas vista pelos olhos da humanidade.
Quais são as principais diferenças entre escrever sobre ficção e realidade?
A ficção é mais agradável, embora se possa colocar nela todo tipo de atrocidade. Cayman: o dossiê do medo tem floreios de ficção, mas é todo calcado em uma investigação jornalística clássica, pura. É um livro-reportagem que, nas livrarias em que ainda sobrevive, fica estacionado na seção de "Ciências Políticas". O romance que estou escrevendo também parte de um fato real - a Guerra do Paraguai - mas seus protagonistas essenciais foram criados por mim. No livro, eles se misturam a generais de verdade, como o Duque de Caxias e Manuel Luís Osório, mas apenas para posicionar o leitor no contexto da guerra. É mais fácil - e mais divertido - escrever ficção.
Além do lançamento do seu primeiro romance, quais são seus próximos projetos?
Dos 11 aos 18 anos, vivi na caserna. Fiz quatro anos de Colégio Militar de Salvador e outros três, como interno, na Escola Preparatória de Cadetes do Ar, em Barbacena (MG). Muito da minha decisão de centrar um livro na Guerra do Paraguai está fundamentada nessa minha experiência militar singular. Conheço bem os termos e a lógica dos quartéis, inclusive porque cobri, por alguns anos, esse setor em Brasília. Sou, no entanto, anti-militarista por natureza. E antes que se aponte uma contradição, cabe dizer que esses anos de farda foram motivados, principalmente, por conta da minha condição social, embora tenha excelentes recordações do período. Meu próximo livro, se tudo der certo, será uma espécie de exorcismo dos fantasmas desses tempos.