Não é preciso fazer uma grande pesquisa no mercado editorial para notar o quanto o leitor brasileiro consome de literatura estrangeira. Basta dar uma olhada nas prateleiras das livrarias ou acompanhar a lista dos livros mais vendidos. O sucesso dessas obras se deve, é claro, ao talento de seus autores. Mas conta também com o trabalho, quase silencioso, dos tradutores, que, mesmo sem ter criado a história, precisam suar a camisa para recontá-la com dupla fidelidade: ao texto do autor e à compreensão do leitor. O desafio é grande, ultrapassa os limites da língua e passa por questões culturais, éticas e até mesmo técnicas.
Uma vez que o tradutor esteja com o texto em mãos inicia-se um longo trabalho, que envolve não apenas o conhecimento do idioma de origem do livro: é preciso vencer o limite entre ser fiel à obra ou levar o leitor a compreender o que lê. Muitas vezes, para encontrar o melhor modo de traduzir determinado trecho, ele recorre ao dicionário, pesquisa livros relacionados ao tema, conversa com pessoas especializadas no assunto, etc. O volume de pesquisa varia de acordo com o tradutor e o livro, mas todos são unânimes em afirmar que o mais importante é ter bom senso:
— Uma vez li um livro que falava de um príncipe que se achava o máximo. O tradutor não pensou duas vezes e escreveu: "Ele se achava o rei da cocada preta". Mas não combinava, um príncipe da era medieval não se acha o rei da cocada preta. Quando estava traduzindo Ébano, de Ryszard Capuscinski, o autor usava em determinada passagem um ditado africano, algo como "Não se deve cutucar onça com vara curta". Mas antes de usar o provérbio, eu pensei "na África não existe onça" e fiz uma adaptação: Não se deve cutucar o leão com vara curta. — conta Tomasz Barcinski, que traduz livros do polonês.
Nem sempre essas adaptações são possíveis. E, nesse caso, o conhecimento profundo da língua de origem do texto ajuda a fazer as escolhas mais acertadas, no momento em que o tradutor se depara com expressões populares, gírias ou um tipo de linguagem muito rebuscada. Para Milton Lando, a vivência da língua e os anos que morou em Israel o ajudaram a conhecer o que ele chama de "a música do hebraico":
— O Mesmo Mar, de Amós Oz, é todo composto de poesias e mescla a linguagem popular com um texto mais rebuscado, de acordo com o personagem, mas não tive dificuldade de traduzi-lo porque vivi lá, andei pelas ruas, ouvi aquelas expressões e conheço o modo como eles falam — pondera.
No caso de Barcinski, não basta a vivência da língua ou o trabalho de pesquisa. Ele gosta de conhecer de perto o universo do autor dos livros que traduz e chegou a viajar para a Polônia, para conversar com o filho do autor de O Pianista, antes de traduzi-lo. O mesmo costuma fazer a tradutora de italiano e francês Maria do Rosário Toschi Aguiar. Ela acredita que a interação com o autor é muito importante, e, sempre que possível, procura conversar por telefone com o autor antes de traduzir.
No entanto, esse esforço pela busca de uma maior fidelidade às idéias do autor, esbarra, muitas vezes, na questão da tradução indireta. Para reescrever em português textos escritos originalmente em idiomas menos usuais, as editoras procuram traduções desses livros para idiomas mais conhecidos, e a tradução é feita a partir delas. Apesar de comum, este é um recurso que rende discussões entre profissionais da área. Muitos tradutores acreditam que a retradução fere a obra, porque afasta cada vez mais o leitor do texto original, já que por mais fiel que seja à primeira tradução, sempre há algum detalhe do livro que é alterado.
— Quando traduzi Meu Michel, de Amos Oz, a revisora da Cia das Letras comparou meu texto à tradução para o inglês, o francês e o italiano e percebeu que eu não havia escrito o penúltimo parágrafo do livro, que constava nessas traduções. Então expliquei: "Esse parágrafo não existe no texto em hebraico, ele foi inventado por um dos tradutores, possivelmente o de inglês e os outros traduziram a partir do texto dele". — exemplifica Milton Lando
Diante da questão, os tradutores se dividem entre opiniões radicais ou mais brandas. A escritora e tradutora de inglês e alemão, Lya Luft, afirma que não trabalha com este tipo de tradução:
— Acredito que toda tradução tem que ser direta, pois a indireta passou pelo crivo da arte, competência e escolhas de um primeiro tradutor. — afirma.
Já para Rubens Figueiredo, que traduz livros russos, a total fidelidade ao texto do autor é uma ficção:
— Não cabe ao tradutor fazer com que o leitor entenda o que lê. No texto literário, a tradução finge ser um original, assim como o leitor finge ler um original. A exemplo de um ator, o tradutor faz o seu papel enquanto está em cena. — analisa.
Mas não é a apenas o idioma de origem que preocupa os tradutores. A escritora Clarice Lispector costumava afirmar que além de conhecer bem o idioma do texto original, o tradutor precisa ter domínio da língua portuguesa, para escolher melhor as palavras no momento de reescrever o texto. Maria do Rosário Toschi Aguiar concorda. Para ela, a escolha das palavras na língua de chegada é muito mais sutil. Apaixonada por literatura, a tradutora acredita que para ser um bom tradutor é preciso ser um bom leitor:
— A tradução pra mim é um veículo de comunicação. Toda semana estou lendo livros de autores como Machado de Assis, Clarice Lispector, para renovar o meu vocabulário — explica.
*Com colaboração de Camila Tavares, Danielle Chevrand e Paula Barcellos