Se fosse outro autor, talvez se pudesse dizer que mais uma reunião de contos chegou às livrarias. Mas como se trata do italiano Antonio Tabucchi, mestre em confundir realidade e imaginação, tudo muda de figura. E o que seria apenas uma compilação ganha ares de um livro-miscelânea em que é possível encontrar os mais variados estilos: desde cartas e registros biográficos até relatos históricos. Os voláteis do beato Angélico, a mais recente publicação do autor no Brasil, questiona a morte, a alucinação e a própria escrita por meio da ficção.
Costuma-se dizer que Tabucchi tem dupla nacionalidade : italiana e portuguesa. A paixão declarada do autor de Requiem, narrativa escrita em português, pela obra de Fernando Pessoa não se resume ao fato de ser ele o principal tradutor do poeta para o italiano. O ganhador do Européen Jean Monet, além de lecionar literatura portuguesa na Universidade de Siena e personificar o poeta do Desassossego em algumas obras, utiliza Portugal como cenário em muitos de seus romances, como em A cabeça perdida de Damasceno Monteiro, Afirma Pereira e Os três últimos dias de Fernando Pessoa. E Os voláteis não foge à regra. Dos 13 “quase-contos”, como o autor os define no prefácio, três se passam em terras lusitanas.
Em “Último convite”, Lisboa é um palco perfeito para suicídios. O narrador desenvolve a teoria de que a cidade ofereceria “uma considerável variedade de escolhas para um nobre suicídio; e também as mais decorosas, solícitas, educadas e, sobretudo, baratas empresas para resolver o problema daquilo que inevitavelmente resta após um suicídio bem-sucedido: o cadáver”. A maneira um tanto mordaz de “brincar” com a morte não é novidade na literatura de Tabucchi. Em A cabeça perdida, o personagem Deocleciano passa de vendedor ambulante a pescador de cadáveres e suicidas no rio Douro, e chega a arrancar do rio mais de 700 corpos. Ainda no mesmo livro, Firmino, o protagonista, é caracterizado como “jornalista de um periódico de escândalos e de assassinatos, divórcios, mulheres desventuradas e cadáveres decapitados”. Talvez a repetição proposital da temática seja uma forma de o autor alertar, por meio da ficção, para a descaracterização da morte e a banalização da violência no mundo real.
Por outro lado, a realidade e a fantasia se misturam em “Carta de Dom Sebastião de Assis” e “O amor de Dom Pedro” em que Tabucchi faz dos personagens da história de Portugal personagens da sua literatura. Na carta, o rei de Portugal encomendaria um quadro ao pintor Francisco Goya, dando-lhe todos os detalhes: “a meia altura, de modo que apareça necessariamente na linha do horizonte, pintareis um pequeno touro. No meio do quadro, e bem no alto, entre nuvens e céus, fareis uma nau. À carranca dessa nau, que há de ter figura humana, dareis feições que pareçam vivas e que evoquem remotamente o meu rosto”. No outro conto, o autor reconta a beleza e a tragédia do amor de Pedro e Inês – um relato histórico que recebeu tom épico em Os Lusíadas, de Camões.
A alucinação é a chave do conto que dá nome ao livro. Em “Os voláteis do beato Angélico”, um frade é surpreendido pela aparição de três criaturas, que “pareciam frangos depenados”, e que somente ele via. Os pequenos e estranhos seres alados “vagaram pelo éter como estilhaços à deriva” para serem pintados pelo frade, que era ninguém menos que o pintor italiano renascentista Fra Angélico. A viagem alucinatória também está presente em “História da história que não existe”. Figuras fantasmagóricas, obsessões, assombros chegam durante a noite, através das luzes de um farol, para relatar histórias e estimular a inspiração do “escritor de um romance ausente”.
No conto “A frase a seguir é falsa. A frase anterior é verdadeira”, Tabucchi troca correspondências com um suposto leitor que teria conhecido em Madras. Para evitar qualquer possibilidade de interpretação sobre a veracidade das cartas, o autor não se cansa de repetir: “Os escritores são, freqüentemente, pessoas nas quais não podemos confiar até quando afirmar praticar o mais rigoroso realismo. Pelo que me diz respeito, mereço, portanto, a máxima desconfiança”. E ainda: “Não acredite muito no que afirmam os escritores: eles mentem (dizem falsidades) quase sempre”. Tabucchi não perde a oportunidade de alfinetar a crítica, em “As pessoas felizes”: “Hoje os críticos têm a mania de descarregar os próprios nervosismos em textos literários”.
Após 96 páginas de sonhos mesclados ao delírio, alucinação à história, ficção à realidade, fecha-se o livro com uma única certeza: a literatura escapa a uma verdade absoluta, a uma lógica cartesiana. Tudo o que parece ser não é e tudo o que não é parece ser. Tabucchi, “um nostálgico de sonhos desconhecidos”, desfaz os limites entre real e onírico sem cair nos clichês, nos lugares comuns ou na facilidade do que se convencionou chamar “literatura fantástica”.