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Os voláteis do beato Angélico
Antonio Tabucchi
Tradução Ana Lucia Belardinelli
Rocco
96 páginas
R$ 19

Livro-miscelânea

Italiano Antonio Tabucchi mistura estilos de gêneros em 'Os voláteis do beato Angélico'

Paula Barcellos

Se fosse outro autor, talvez se pudesse dizer que mais uma reunião de contos chegou às livrarias. Mas como se trata do italiano Antonio Tabucchi, mestre em confundir realidade e imaginação, tudo muda de figura. E o que seria apenas uma compilação ganha ares de um livro-miscelânea em que é possível encontrar os mais variados estilos: desde cartas e registros biográficos até relatos históricos. Os voláteis do beato Angélico, a mais recente publicação do autor no Brasil, questiona a morte, a alucinação e a própria escrita por meio da ficção.

Costuma-se dizer que Tabucchi tem dupla nacionalidade : italiana e portuguesa. A paixão declarada do autor de Requiem, narrativa escrita em português, pela obra de Fernando Pessoa não se resume ao fato de ser ele o principal tradutor do poeta para o italiano. O ganhador do Européen Jean Monet, além de lecionar literatura portuguesa na Universidade de Siena e personificar o poeta do Desassossego em algumas obras, utiliza Portugal como cenário em muitos de seus romances, como em A cabeça perdida de Damasceno Monteiro, Afirma Pereira e Os três últimos dias de Fernando Pessoa. E Os voláteis não foge à regra. Dos 13 “quase-contos”, como o autor os define no prefácio, três se passam em terras lusitanas.

Em “Último convite”, Lisboa é um palco perfeito para suicídios. O narrador desenvolve a teoria de que a cidade ofereceria “uma considerável variedade de escolhas para um nobre suicídio; e também as mais decorosas, solícitas, educadas e, sobretudo, baratas empresas para resolver o problema daquilo que inevitavelmente resta após um suicídio bem-sucedido: o cadáver”. A maneira um tanto mordaz de “brincar” com a morte não é novidade na literatura de Tabucchi. Em A cabeça perdida, o personagem Deocleciano passa de vendedor ambulante a pescador de cadáveres e suicidas no rio Douro, e chega a arrancar do rio mais de 700 corpos. Ainda no mesmo livro, Firmino, o protagonista, é caracterizado como “jornalista de um periódico de escândalos e de assassinatos, divórcios, mulheres desventuradas e cadáveres decapitados”. Talvez a repetição proposital da temática seja uma forma de o autor alertar, por meio da ficção, para a descaracterização da morte e a banalização da violência no mundo real.

Por outro lado, a realidade e a fantasia se misturam em “Carta de Dom Sebastião de Assis” e “O amor de Dom Pedro” em que Tabucchi faz dos personagens da história de Portugal personagens da sua literatura. Na carta, o rei de Portugal encomendaria um quadro ao pintor Francisco Goya, dando-lhe todos os detalhes: “a meia altura, de modo que apareça necessariamente na linha do horizonte, pintareis um pequeno touro. No meio do quadro, e bem no alto, entre nuvens e céus, fareis uma nau. À carranca dessa nau, que há de ter figura humana, dareis feições que pareçam vivas e que evoquem remotamente o meu rosto”. No outro conto, o autor reconta a beleza e a tragédia do amor de Pedro e Inês – um relato histórico que recebeu tom épico em Os Lusíadas, de Camões.

A alucinação é a chave do conto que dá nome ao livro. Em “Os voláteis do beato Angélico”, um frade é surpreendido pela aparição de três criaturas, que “pareciam frangos depenados”, e que somente ele via. Os pequenos e estranhos seres alados “vagaram pelo éter como estilhaços à deriva” para serem pintados pelo frade, que era ninguém menos que o pintor italiano renascentista Fra Angélico. A viagem alucinatória também está presente em “História da história que não existe”. Figuras fantasmagóricas, obsessões, assombros chegam durante a noite, através das luzes de um farol, para relatar histórias e estimular a inspiração do “escritor de um romance ausente”.

No conto “A frase a seguir é falsa. A frase anterior é verdadeira”, Tabucchi troca correspondências com um suposto leitor que teria conhecido em Madras. Para evitar qualquer possibilidade de interpretação sobre a veracidade das cartas, o autor não se cansa de repetir: “Os escritores são, freqüentemente, pessoas nas quais não podemos confiar até quando afirmar praticar o mais rigoroso realismo. Pelo que me diz respeito, mereço, portanto, a máxima desconfiança”. E ainda: “Não acredite muito no que afirmam os escritores: eles mentem (dizem falsidades) quase sempre”. Tabucchi não perde a oportunidade de alfinetar a crítica, em “As pessoas felizes”: “Hoje os críticos têm a mania de descarregar os próprios nervosismos em textos literários”.

Após 96 páginas de sonhos mesclados ao delírio, alucinação à história, ficção à realidade, fecha-se o livro com uma única certeza: a literatura escapa a uma verdade absoluta, a uma lógica cartesiana. Tudo o que parece ser não é e tudo o que não é parece ser. Tabucchi, “um nostálgico de sonhos desconhecidos”, desfaz os limites entre real e onírico sem cair nos clichês, nos lugares comuns ou na facilidade do que se convencionou chamar “literatura fantástica”.


Reprodução

"A literatura escapa a uma verdade absoluta"