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Flush – Memórias de um cão
Virgínia Woolf
L&PM
152 páginas
R$ 26

Reflexões do melhor amigo do homem

Em 'Flush', Virgínia Woolf surpreende público com diário de um cãozinho em plena Londres de 1840

Fernanda Couto

Olhos vivos, cor de amêndoa. Leve penugem dourada. Cachos pendentes sobre as orelhas. Um incrível senso crítico. Seu nome? Flush. Foi ele o responsável pelo mais bem-humorado romance de Virgínia Woolf. Mas engana-se quem pensa que Flush é fruto da criatividade de uma Virgínia Woolf excessivamente intimista e depressiva. O doce cãozinho realmente existiu. Em pleno verão inglês, 1931, Flush, de mansinho, despertou a curiosidade da escritora através da leitura de correspondências entre os poetas Robert Browning e Elizabeth Barrett, na qual Flush sempre aparece entre elogios, travessuras e broncas de sua dona, Elizabeth. “A imagem do cachorro deles me fez rir tanto que não pude deixar de dar-lhe vida”, confessou Virgínia a uma amiga.

Em Flush – memórias de um cão, a escritora assume um tom totalmente diferente de seus outros livros, tais como Passeio ao farol e Mrs. Dalloway. Suave e doce, mas não menos crítica, Flush é a biografia de um cocker spaniel, suas aventuras e impressões sobre o mundo, ou melhor, sobre a sociedade inglesa vitoriana e seus valores. Irreverência é o tom desta obra permeada de críticas e comentários ácidos sobre a Londres de 1840.

Apesar da língua afiada, Virgínia viu em Flush seu maior sucesso de vendas entre os leitores e unanimidade de crítica, tanto na Inglaterra quanto nos Estados Unidos. Mas o livro vai além. Sem desmerecer a espécie humana, as memórias de Flush poderiam ser muito bem comparadas as de um homem, ou ainda, aos ritos de passagem que o ser humano é obrigado a vivenciar ao longo da vida. Explica-se: o ingênuo Flush, quando filhote, corria solto pelos campos, no processo de apreensão do mundo e de si mesmo. “Amava tanto os raios de sol quanto um pedaço de rosbife”. Tudo muda quando o cãozinho é dado de presente à senhorita Barret e obrigado conhecer a cidade, a sociedade e os valores londrinos. Mirando-se no espelho, Flush se admira. Na rua, o cãozinho passa a notar os diferentes cães de raça e seus donos, as ruas limpas e a classe da Wimpole Street, bem como de seus moradores. A história não pára por aí. Flush ainda experimenta o ciúme, quando vê sua dona cortejada pelo senhor Browning e os maus tratos de um seqüestro.

Fim? Ainda não. Flush- memórias de um cão é um livro “três em um”. Além da crítica e das memórias do cocker spaniel, o livro conta com a bela e verídica história de amor entre os poetas Robert Browning e Elizabeth Barrett. De brinde, o leitor ainda leva trechos de cartas dos amantes e notas explicativas da própria Virgínia Woolf sobre locais e personagens históricos.

Todos esses argumentos, talvez, tenham rendido a Flush e à sua autora o merecido sucesso. Nada mal para uma Virgínia, cuja própria vida foi marcada por dramas, como a morte da mãe, que desencadeou o histórico de depressão da escritora, então 13 anos, e um relacionamento incestuoso com seus meio-irmãos, culminando com o suicídio da autora em 1941. Sem dúvida, Flush é a surpreendente face doce e bem-humorada de Virgínia Woolf. Flush- memórias de um cão é um livro singular. Resumindo: dá gosto de ler.


Reprodução

"Irreverência é o tom desta obra permeada de críticas e comentários ácidos sobre a Londres de 1840"