Olhos vivos, cor de amêndoa. Leve penugem dourada. Cachos pendentes sobre as orelhas. Um incrível senso crítico. Seu nome? Flush. Foi ele o responsável pelo mais bem-humorado romance de Virgínia Woolf. Mas engana-se quem pensa que Flush é fruto da criatividade de uma Virgínia Woolf excessivamente intimista e depressiva. O doce cãozinho realmente existiu. Em pleno verão inglês, 1931, Flush, de mansinho, despertou a curiosidade da escritora através da leitura de correspondências entre os poetas Robert Browning e Elizabeth Barrett, na qual Flush sempre aparece entre elogios, travessuras e broncas de sua dona, Elizabeth. “A imagem do cachorro deles me fez rir tanto que não pude deixar de dar-lhe vida”, confessou Virgínia a uma amiga.
Em Flush – memórias de um cão, a escritora assume um tom totalmente diferente de seus outros livros, tais como Passeio ao farol e Mrs. Dalloway. Suave e doce, mas não menos crítica, Flush é a biografia de um cocker spaniel, suas aventuras e impressões sobre o mundo, ou melhor, sobre a sociedade inglesa vitoriana e seus valores. Irreverência é o tom desta obra permeada de críticas e comentários ácidos sobre a Londres de 1840.
Apesar da língua afiada, Virgínia viu em Flush seu maior sucesso de vendas entre os leitores e unanimidade de crítica, tanto na Inglaterra quanto nos Estados Unidos. Mas o livro vai além. Sem desmerecer a espécie humana, as memórias de Flush poderiam ser muito bem comparadas as de um homem, ou ainda, aos ritos de passagem que o ser humano é obrigado a vivenciar ao longo da vida. Explica-se: o ingênuo Flush, quando filhote, corria solto pelos campos, no processo de apreensão do mundo e de si mesmo. “Amava tanto os raios de sol quanto um pedaço de rosbife”. Tudo muda quando o cãozinho é dado de presente à senhorita Barret e obrigado conhecer a cidade, a sociedade e os valores londrinos. Mirando-se no espelho, Flush se admira. Na rua, o cãozinho passa a notar os diferentes cães de raça e seus donos, as ruas limpas e a classe da Wimpole Street, bem como de seus moradores. A história não pára por aí. Flush ainda experimenta o ciúme, quando vê sua dona cortejada pelo senhor Browning e os maus tratos de um seqüestro.
Fim? Ainda não. Flush- memórias de um cão é um livro “três em um”. Além da crítica e das memórias do cocker spaniel, o livro conta com a bela e verídica história de amor entre os poetas Robert Browning e Elizabeth Barrett. De brinde, o leitor ainda leva trechos de cartas dos amantes e notas explicativas da própria Virgínia Woolf sobre locais e personagens históricos.
Todos esses argumentos, talvez, tenham rendido a Flush e à sua autora o merecido sucesso. Nada mal para uma Virgínia, cuja própria vida foi marcada por dramas, como a morte da mãe, que desencadeou o histórico de depressão da escritora, então 13 anos, e um relacionamento incestuoso com seus meio-irmãos, culminando com o suicídio da autora em 1941. Sem dúvida, Flush é a surpreendente face doce e bem-humorada de Virgínia Woolf. Flush- memórias de um cão é um livro singular. Resumindo: dá gosto de ler.