Injustiça social, suas causas e conseqüências, vem sendo a preocupação maior do jornalista e escritor Caco Barcellos. Nascido em bairro pobre, Partenon, de Porto Alegre, Barcellos sofreu na pele e alma as desventuras de pertencer à classe menos favorecida. Mas soube, como ninguém, dar a volta por cima com muito talento. Depois de escrever A revolução das crianças (sobre a revolução sandinista) e Rota 66 (livro-denúncia sobre o extermínio, as barbáries praticadas pela Ronda Ostensiva Tobias de Aguiar, órgão da polícia paulista). Agora, ele brinda seus leitores com seu terceiro livro – Abusado – O dono do morro Dona Marta – que é uma competente viagem ao redor da vida, do pensamento e da ação de pessoas, nascidas sob o signo da desesperança e da morte, residentes na comunidade favelada Santa Marta, no morro Dona Marta, Botafogo, zona sul do Rio, a menos de 300 metros da prefeitura carioca.
Os cariocas do morro sabem tudo sobre a vida na cidade, enquanto os do asfalto desconhecem o que ocorre na favela: péssimas condições de higiene, carência de educação, saúde e lazer, violência do narcotráfico e da polícia, como relata Caco Barcellos em Abusado. “Fazer este livro foi sem dúvida um desafio, cheio de implicações éticas, morais e legais. Antes de enfrentá-la, eu já deduzira que seria a reportagem mais difícil dos meus 25 anos de profissão”, revela o jornalista.
“Você mudaria de vida? Sairia do morro para ficar perto de mim?” Sairia da Rua Jupira, 72? Pois bem, todos os moradores da Santa Marta possuem esse endereço e, cabe salientar, que é a comunidade de maior concentração demográfica do Brasil. Devido à influência de Dom Hélder Câmara, a Santa Marta tem uma rede aérea de abastecimento de água potável bombeada das tubulações da Prefeitura no bairro Laranjeiras. Essa história, como o aqueduto vira “chuveirinho” – “os tiroteios faziam chover até em dia de sol forte na Santa Marta. Os chuveirinhos eram provocados pelos projéteis que rompiam as tubulações de água” – são contadas pelo repórter Caco Barcellos em forma de reportagem romanceada, que reproduz a linguagem dos moradores da comunidade Santa Marta. Barcellos relata a verdade, sem julgamento de qualquer natureza, mostrando que a cultura do brasileiro – segundo povo mais violento da América do Sul, o primeiro é o colombiano, está mudando para pior.
Abusado narra casos surpreendentes, emocionantes, capazes de revoltar, causar náuseas e envergonhar o leitor. Dentre eles, os de Juliano VP/ Marcinho VP, Márcio Amaro de Oliveira, sua origem e família, escolaridade e gosto literário, seu prazer em surfar, suas muitas mulheres e alguns filhos, seu ingresso e ascensão no narcotráfico, formação de quadrilha e história de seus membros, ligação com o Comando Vermelho, seus encontros com Caco Barcellos em Buenos Aires e sua prisão em Bangu 1 (logo após em Bangu 3), por associação ao tráfico, homicídio e corrupção de menores.
Juliano VP/ Marcinho VP tem hoje 33 anos e está condenado a 46 de cadeia. Em 1996, ganhou fama ao autorizar a gravação, no morro, do clipe They don´t care about us, com Michael Jackson. Márcio Amaro de Oliveira, segundo o escritor, se revela como homem que reza todos os dias. “Obrigado meu Pai por mais um dia de vida nesta tua terra maravilhosa... só você, meu Pai, para conceder essa misericórdia divina”, eis a oração diária proferida por Juliano VP, que sempre estava acompanhado por imagem ou santinho de São Judas Tadeu e Santo Expedito, além da Bíblia.
Em Abusado, Barcellos optou “por usar codinomes ou apelidos conhecidos dos mais íntimos como forma de contar as histórias de crimes sem precisar mutilar a verdade”. Acrescenta, “omiti alguns nomes para evitar intriga, perseguição ou punições judiciárias aos que me confiaram seus segredos. Usei o mesmo critério para quem vivia fora do morro, criminosos ou trabalhadores, gente honesta ou não.”
Em Abusado - dividido em três partes e trinta e oito capítulos, Caco Barcellos faz previsões assustadoras de tão reais, fundamentais para que, mais do que depressa, a sociedade faça alguma coisa em defesa da vida, de uma vida mais saudável, justa, “que trate, a todos nós, desiguais, de forma igualitária”. Engana-se quem pensa que VP é uma forma sincopada de VIP (Very Important Person). O significado de VP e como foi incorporado ao pré-nome de Juliano VP/Marcinho são motivos a mais para se ler esse livro.
Após quatro anos de complicada gestação, Abusado – O dono do Morro Dona Marta, nasceu pelas mãos de Caco Barcellos para esclarecer, sacudir, “abalar” o jornalismo investigativo e a relação morro/asfalto já preconizada em livros como Cidade Partida (de Zuenir Ventura, Companhia das Letras, 280 páginas) e Cidade Cerzida (de Adair Rocha, Relume Dumará, 144 páginas). Foi escrito, também, para marcar um novo tempo, porque, segundo Caco Barcellos, “é o momento de as pessoas honestas, de bem, que gostam do país, mostrarem a sua força. A gente fica se queixando do corrupto, do marginal, do desonesto, do bandido, mas onde está a força do honesto, do bom brasileiro?” O romance-reportagem, que já teve seus direitos autorais comprados pelo produtor inglês Sam Sterling e em breve surgirá nas telas como longa-metragem, é a prova viva e contrária da canção que diz “quem vive no morro já mora pertinho do céu”.